Pular para o conteúdo principal

Varredura de Compostos Orgânicos Voláteis (VOCs)

No Gerenciamento de Áreas Contaminadas, o diagnóstico de uma área se inicia com uma Avaliação Preliminar. O produto final dessa Avaliação Preliminar deve ser um plano de investigação confirmatória, que deve levar em conta, para locar os pontos de amostragem de solo, água subterrânea e/ou ar do solo,  todas as Substâncias Químicas de Interesse (SQIs) manipuladas na área, todas as áreas fonte, todas as fontes potenciais, todas as fontes primárias de contaminação e o meio físico. Se houver incertezas sobre algum desses itens, o Responsável Técnico deverá propor um método de varredura ou screening.
O presente texto vai cuidar exclusivamente de varreduras para encontrar fontes de SQIs que sejam compostos orgânicos voláteis (VOCs). Ressalta-se que o objetivo de um screening é coletar grande quantidade de dados qualitativos, de baixo custo individual, para se ter uma tendência, uma linha de evidência, que permita direcionar a amostragem de solo, água subterrânea ou ar do solo. Essa varredura de VOC não deve ser utilizada para a quantificação de risco ou mesmo uma tomada de decisão sobre a contaminação ou não da área.
No Brasil, convencionou-se utilizar a malha de Soil Gas Survey (SGS) como única varredura para VOCs, decorrente da exigência da CETESB em áreas de Postos de Combustíveis que tinham uma área grande. Essa exigência pontual (que já não existe mais há um bom tempo) levou o mercado todo a utilizar esse método como única varredura possível para VOCs, com o objetivo de se detectar fontes.
A execução dessa atividade é muito simples e de custo extremamente baixo: é realizada uma perfuração de pequeno diâmetro até a profundidade de 80-100 cm, a introdução, nessa perfuração, de uma ponteira de aço inox furada nessa e, dentro dessa ponteira, a medição de VOCs por meio de um detector de campo (PID, por exemplo). Esse método, largamente utilizado no Brasil tem alguns problemas, que levaram a CETESB, em sua recente decisão de diretoria (DD-038) a não recomendar o seu uso.
Os problemas do SGS são basicamente três: um deles é o grande número de falsos negativos que esse método proporciona, especialmente em solos pouco permeáveis, uma vez que o solo é perfurado, e imediatamente é inserida a ponteira e tomada a medida do VOC. Se o solo é pouco permeável, os VOCs demoram para entrar no furo, e consequentemente, demoram para serem detectados pelo PID de campo. O segundo problema é decorrente do primeiro, pois, após a perfuração do solo, normalmente coberto por uma camada de concreto, pode se obter falsos positivos, pois pode ter havido a migração de VOCs pelo contrapiso e, no ponto de medida, haver um bolsão que não é proveniente de uma fonte que está abaixo do ponto de medida, mas sim, de uma fonte que está em outra posição, mas o vapor migra para aquele ponto específico. O terceiro problema é decorrente dos dois anteriores: o aparelho de campo (PID), em solos pouco permeáveis, preferencialmente "puxa" o ar da própria perfuração (portanto, do contrapiso, que normalmente possui permeabilidade mais alta que o meio, levando a medidas falsas) ou da superfície, gerando resultados inconsistentes e pouco representativos.
Por conta dessas incertezas, a CETESB recomenda, para essa situação, o uso de amostradores passivos ou análises químicas. Embora sejam excelentes métodos, muito precisos e com poucas incertezas (o ponto de amostragem é a principal delas, que não tem a ver co o método, mas sim, com a execução), os dois possuem um custo muito elevado, que pode acabar inviabilizando a função do screening, que é obter muitos dados, qualitativos e de baixo custo individual. Os amostradores passivos tem um custo médio da ordem de R$ 800,00 cada um (incluindo instalação e análise), e as análises químicas de ar mais baratas são as realizadas pelo método 8260 com coleta de amostras em Tedlar Bags, a um custo estimado de R$ 350,00/ponto, incluindo a instalação de um poço simples de vapor. Alternativamente, pode-se utilizar um laboratório de campo, como o da Clean, com custo semelhante.
Uma varredura de pequeno porte teria algo em torno de 200 pontos, de onde se percebe que essa atividade geraria um custo de 70-160 mil reais para se obter uma avaliação qualitativa de uma tendência da posição de uma fonte.
Desta forma, é preciso que se tenha um método de varredura de VOCs que ao mesmo tempo reduza as enormes incertezas do SGS e tenha um custo bem menor que os amostradores passivos e as análises químicas de ar do solo. A ECD, através de sua política de Pesquisa, Desenvolvimento e compartilhamento de informação, desenvolveu uma metodologia simples que pode contribuir para esse cenário: os poços temporários de vapor (PTVs).
Os PTVs consistem em um poço de vapor, feito com material muito barato, instalado em uma perfuração muito parecida com da malha de SGS, porém, com um diâmetro ligeiramente maior, de 30 mm. Esse furo é feito até uma profundidade entre 80-100 cm e nele é colocada uma pedra porosa de aquário conectada a uma mangueira de Teflon. No espaço anelar entre a pedra porosa e a parede da perfuração, é adicionado pré-filtro fino (0,6-1,5 mm de preferência), em uma camada de 10-20 cm de espessura. Acima dele, uma camada de 10 cm de areia lavada. Acima dessa areia, é adicionada calda de cimento, para que haja um bom isolamento entre a superfície e a seção filtrante do PTV.
Pode-se perceber que o poço em si é muito simples de ser instalado e extremamente barato, quando comparado às alternativas, mas o primeiro segredo do método está na instalação. A seção filtrante desse poço deve ficar isolada do contrapiso e do ar atmosférico, para que, quando for feita a medição, o ar amostrado venha do solo e não dessas outras fontes que não interessam ao nosso screening de VOCs, portanto, a posição do pré-filtro e da calda de cimento é essencial para o sucesso do trabalho.
O segundo segredo está na medição. Ao contrário do SGS, onde a medida é feita na hora em que o solo é perfurado, esse método permite que a medida seja feita após um tempo, para que seja obtido um equilíbrio entre o ar do solo e o poço, da mesma forma que um poço de monitoramento de água subterrânea. A nossa recomendação é que seja feita a 1a medida 48 após a instalação, e que seja medido diariamente durante 1 semana, depois 1 vez por semana durante 1 mês. Com isso, haverá uma quantidade de dados suficiente para se estabelecer uma tendência, e a interpretação dessa tendência deverá levar à escolha dos pontos certos para a execução das amostragens direcionadas de solo e/ou água subterrânea com o objetivo de se investigar a fonte ou um hot spot.
O custo da instalação desses poços não ultrapassa R$ 100,00 por ponto, e pode ser reduzido se o Responsável Técnico tiver uma equipe ou profissional de campo próprio para realizar a instalação, que é muito simples. Há um custo operacional um pouco maior porque é preciso que se volte ao campo algumas vezes para executar a medição, mas esse custo já faz parte do trabalho como um todo.
Em resumo, é um método quase tão barato quanto o SGS, mas com incertezas muito menores, pois permite o equilíbrio dos vapores com o instrumento de medida, mesmo em solos pouco permeáveis, e não sofre interferência do contrapiso nem do ar atmosférico.
Os resultados iniciais da aplicação dessa metodologia, planejada e executada pela ECD em conjunto com uma consultoria parceira, trouxe resultados muito positivos dos PTVs quando comparados ao SGS. A malha de SGS detectou anomalias baixas (entre 15-40 ppmv de VOCs) em alguns pontos, enquanto os PTV detectaram anomalias de até 800 ppmv em pontos diferentes, medidos após 7 dias da instalação. Esses pontos não foram detectados pela malha de SGS, provavelmente devido ao solo ser pouco permeável, e seriam deixados de lado na investigação confirmatória. Com os PTVs, foi possível direcionar a investigação para o verdadeiro hot spot, e assim, o modelo conceitual foi melhorado, com a ajuda de um método extremamente simples e barato.
Nós, da ECD, recomendamos a todos o uso dos PTVs como ferramenta de screening para VOCs.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sua Majestade, o Poço de Monitoramento

Durante o Gerenciamento de Áreas Contaminadas (GAC), muitas decisões devem ser tomadas, em muitas etapas. A área está contaminada ou não? Existe risco à saúde humana? Precisa ser remediada? Como? Atingiu as metas de remediação? Está reabilitada para o uso pretendido? Posso colocar pessoas para morar lá? São questões muito importantes social, ambiental e economicamente e devem ser respondidas após coleta e interpretação de dados da área. No Brasil, na imensa maioria das vezes, possivelmente em mais de 90% das situações, os dados que embasam essas decisões vêm de um único instrumento: o poço de monitoramento, personagem de maior veneração de toda a cadeia do GAC. Por isso, pode ser chamado de "Sua Majestade". Mas: de onde vem essa veneração? A resposta é complexa, mas vou aqui emitir a minha opinião: a veneração vem da tradição incrustada em toda a cadeia do GAC (Consultorias, principalmente, mas também poder público e grandes Responsáveis Legais como distribuidoras de pe...

Curso de Amostragem de Solo - 2018

No último mês de setembro/2018, fui um dos docentes de mais um excelente curso, promovido pela AESAS e pelo Centro Universitário SENAC e organizado pela Soldí Ambiental . O tema do curso era Amostragem de Solo, que já foi o mote de muitos textos já escritos nesse espaço, como esse e esse . Além de mim, foram docentes os professores: Nilton Miyashiro, da Engesolos e Silvio Almeida, da Eurofins. Foram três dias de muita conversa, trocas e quebras de paradigmas. Até o momento, as avaliações dos alunos foram extremamente positivas. Os principais conceitos discutidos nesse curso foram: - A amostragem de solo é a principal e mais importante ferramenta para investigação de áreas contaminadas; - Além das amostras para análises químicas (obrigatórias para investigação do próprio solo como meio a ser diagnosticado), a amostragem de solo é essencial para a obtenção de informações sobre o meio físico, particularmente para identificar e delimitar as unidades hidroestratigráficas, que é out...

Amostragem de Solo - Posso Viver Sem?

Sempre brinco com meus amigos do mundo das áreas contaminadas que tenho um "mantra", que é "Amostrai o solo". Tentarei, nesse breve artigo, explicitar algumas razões para a existência desse mantra e para a minha insistência com esse tema, que trata da amostragem de solo para investigação de áreas contaminadas. Vou logo dar a resposta para a pergunta-título: Não, de modo algum você pode realizar uma investigação sem amostrar o solo. Vou enumerar as razões: - A DD-038 (só pra ficar em um exemplo) estabelece que devem ser investigados todos os meios, ou seja, solo, água subterrânea e ar do solo, ou seja, ela obriga o Responsável Técnico a realizar uma amostragem de solo - Se você, por qualquer motivo, estiver investigando somente a água subterrânea instalando poços de monitoramento, é obrigado, pela NBR 15.495-1, a ter um modelo conceitual prévio, estabelecer a zona-alvo do monitoramento, dimensionar abertura das ranhuras e granulometria do pré-filtro, tudo isso an...